quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

A quadrilha dos Josés

João que amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que amava José Ferreira Sobrinho que amava Aglair que amava José Sena que amava Aglair .
Ao ler “Quadrilha” de Carlos Drummond Andrade imagina-se:ficção, fantasia de poeta do século passado?
Para a aposentada Aglair Souza Sena, 64 anos é um fato que marcou sua vida. Aos 15 anos conheceu José Sena em uma festa do santo da cidade “Conversamos a noite inteira e começamos a namorar naquele dia”. Filho de um dos seus vizinhos tinha tudo para ser um namoro tranqüilo, mas como os namoros daquela época não poderiam duram mais que dois anos Aglair foi obrigada pelos seus pais a romper o compromisso com José Sena “Os pais diziam que se o namoro demorasse mais que dois anos o rapaz estava enrolando a moça”, disse Aglair.
Nascida em Curari, no município do Careiro da Várzea, interior do Amazonas, teve uma infância calma, igual a de todas as crianças criadas em fazenda .Com uma criação muito rígida Aglair fala que o que mais gostava era a infância, “Brincava de casinha e boneca...(suspira) Ah! Como eu gostava de brincar de boneca”, diz Aglair.
Seu pai, muito severo na educação dos filhos, para evitar o namoro “arrumou” um casamento para Aglair com José Ferreira Sobrinho. Para obedecer ao seu pai, mas contra a sua vontade “Todos os dias eu chorava e o meu marido perguntou o porquê, eu, inocente disse a ele que amava outro e jamais o amaria, prometi fidelidade, amor não”, disse Aglair.
Aos 18anos e casada, veio morar em Manaus, por causa de muitas brigas seu casamento durou 10meses.
Após o fim de seu matrimonio voltou a sua cidade. “Eu tinha muita vontade de continuar meus estudos”, lembra Aglair. Maior de idade e decidida morar em Manaus para concluir seus estudos “Queria muito fazer uma faculdade de Medicina ou Farmácia esse era meu sonho, terminei meus estudos casada”, disse Aglair que fez curso técnico em patologia, trabalha pela manhã no laboratório do Serviço de Pronto Atendimento Joventina Dias (SPA)Compensa II.
O reencontro com José Sena foi casual “Não foi planejado, depois de três anos não imaginava que ele lembrasse de mim. Quando casei o José Sena foi morar em Itacoatiara. Na época ele não acreditava que era um casamento forçado”, conclui Aglair.
Após cinco anos de namoro, e aos 23anos, casou com José Sena, no civil e no religioso.
Para que o casamento religioso acontecesse os noivos conversaram o padre Bento, sei pároco “ Ele disse que na Bíblia fala do livre arbítrio e eu não casei por vontade própria”, disse Aglair. Por causa disto o casamento não foi anulado,mas invalidado. Para oficializar os documentos José Ferreira assinou os papéis da invalidez do matrimonio confirmando a versão de Aglair.
Hoje casada com José Sena, mãe de cinco filhos naturais e um adotivo “Foi casual que a criança surgiu na minha vida”, disse Aglair . Ainda tem muitos sonhos, iniciou o curso de Pedagogia “ É uma realização profissional”, disse Aglair.
Realizada, Aglair sentiu necessidade de compartilhar este amor e o transformou em amor-solidário. Durante 10anos trabalhou na Paróquia de São José Operário, ajudando pessoas da comunidade. Agora criou um projeto social para mulheres grávidas carentes, aprovado pelo Conselho de Desenvolvimento Humano(CDH), “ Está todo documentado Palácio da Justiça”, disse Aglair sobre o projeto.
Uma das beneficiadas foi a estudante Maria Rosinalda Nelly Gomes, 23anos, que veio de Boa Vista dos Ramos. Rosinalda trabalhava em uma casa engravidou e quando estava com sete meses sua patroa disse para que fizesse uma escolha entre o remédio ou rua “ Eu muito triste disse a dona Aglair e ela me convidou para morar em sua casa” “ A dona Aglair é uma mulher sempre sorridente, cuidadosa e preocupada com todos”, finaliza Rosinalda, com o bebê de dois meses. “Ela soube do projeto por acaso, veio beber água na igreja e viu o anuncio”, relembra Aglair.
Essa pisciana, mas visionária, quebrou tabus, escreve sua biografia que pretende lançar em janeiro de 2008.Sempre ativa, católica praticante, estudou violão no Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS) e tocando nas missas, diz com empolgação que uma de suas filhas está concluindo o curso de farmácia “ Senti-me realizada em meus filhos”, conclui Aglair.