quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

DIÁRIO DA DITADURA

 (fragmento de um trabalho sobre a república o qual tínhamos que discorrer num diário sobre os acontecimentos numa perspectiva que éramos o Brasil)

O GOLPE E A REPRESSÃO

Rio de Janeiro, 13 de março de 1964, manhã nublada na cidade, não só pelo clima, mas pela crise econômica que o país todo passava. Hoje vi meu pai, arrumado não para trabalhar como de costume, tomando café e falando sobre “A luta pelos nossos direitos”. Ele e alguns de seus amigos que trabalhavam na fábrica decidiram ouvir o que Jango iria falar no comício na central do Brasil, sem entender muito bem o que falavam, fiquei ouvindo tudo.
Seis dias depois, os conservadores organizaram uma manifestação contra as intenções de João Goulart, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo.
Nesse mesmo período o mundo vive auge da Guerra fria. Eu, uma criança ainda, percebia a divisão do mundo em capitalistas e socialistas.
Para reprimir nosso movimento, o governo incendeia o prédio de UNE no dia 1 de abril, gritos de pânico, ainda podia ser ouvido e o terror no rosto das pessoas por toda a parte naquele dia.Nesse mesmo ano vi o povo, insatisfeito por causa da carestia, clamar pela revolução.
Dia 31 de março tropas do exercito tomam o poder, pressionado pelos militares e para evitar uma guerra civil Jango exila-se no Uruguai.
O General Castelo Branco assume o poder, e divulga o golpe como “A Revolução Redentora”, a vitória do povo contra os tiranos. Um homem com semblante ...
A tensão era tamanha, a maioria dos colegas haviam sido presos e torturados, acusados de subversão, e no dia 26 de junho de 1964 conseguimos reunir 100mil pessoas numa passeata.
Repressão a todo e qualquer ideologia contrária ao governo, livros confiscados, a censura era implacável à imprensa, os filmes que todos nós queríamos ver passavam primeiro pelos censores. Não lembro a data exata, só lembro que no ano de 1970 foi instituída a pena de morte.
Não me considerava politizada, lutava por algumas causas, mas eram apenas isso, não tinha paixão ao que fazia. Mudei completamente minha opinião ao entrar na Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), conheci um grupo de estudantes que se entitulavam como militantes socialistas, mas para meus pais não passavam de estudantes subversivos. Um desses estudantes era Stuart Edgar Angel Jones, sempre envolvido com os movimentos me desperta o interesse pela política.
Pouco tempo depois eu, República federativa do Brasil, já estava envolvida em meio a passeatas, tumultos, em busca da liberdade, dos direito que cada indivíduo deveria ter, mas naquela ocasião, não tinham.

SOB O VÉU DA DITADURA

Enquanto muitos vibravam pelo tricampeonato, nós militantes, reuníamos na casa de outros companheiros para discutir sobre a política, filosofávamos e foi nesta mesma ocasião, em uma dessas ocasiões que experimentei um cigarro de maconha. A sensação que tive que as idéias que eram discutidas eram rapidamente absorvidas juntamente com a fumaça.
Conheci Chico Buarque, Caetano Veloso e Nara Leão que nos ajudavam na divulgação das idéias revolucionárias com suas canções com conteúdo de protestos pacífico.
Nos “anos de chumbo” foi um dos períodos mais agressivos que me recordo. Chico, Nara Leão e muitos outros artistas foram perseguidos, muitos deles saíram do país. Com os idéias de Ernesto Che Guevara, muitos dos companheiros foram as ruas, assaltavam bancos e conhece Lamarca. Numa dessas investidas e fugas o companheiro Stuart decide viver na clandestinidade. Nunca irei esquecer dia 14 de maio de 1971, aquela tarde de sol, Stuart, vestido com calça jeans, camiseta branca e uma jaqueta escura, fomos presos. Choques, pontapés, tapas, espancamentos viraram nossa rotina. Em uma das sessões de tortura já não sentia mais as chicotas, os choques, os gemidos de dor e angustia, eles queriam saber o paradeiro do companheiro Lamarca. Não cedemos as torturas e os castigos aumentaram, e Stuart não resistiu. Tentei avisar sua mãe, mas ela não acreditou, percorreu em todos os lugares prováveis. Embora nossas famílias, representadas por advogados, tentassem nos libertar o governo extinguiu o Hábeas Corpus.
Após muito sofrimento e muitas mortes, alguns dos nossos companheiros viram uma abertura política lenta, a redemocratização, mas o que era exatamente isso? alguns viam com certo temor outros porém recebiam com entusiasmo.
Um grupo pequeno foi às ruas e aos poucos vi estudantes, jornalistas, artistas, intelectuais, jogadores de futebol e muitos outros brasileiros unirem-se a esse movimento, o Diretas Já e nossa voz foi ouvida.
Com o fim da ditadura, pensamos que Tancredo Neves, da Aliança Democrática fosse o primeiro presidente. Para a nossa surpresa, Tancredo, antes de assumir fica doente e morre. José Sarney, seu vice-presidente, assume o governo. A Constituição de 1988 tentou apagar os rastos da ditadura, mas essas cicatrizes marcaram não apenas os corpos de muitos companheiros que acreditando nos ideais de liberdade, mas carregam na memória que muitos tentam esquecer.

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